segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Literal, banal, cal

Os grandes escritores conseguem falar tudo o que importa, usando apenas meia dúzia de palavras. Grandes escritores podem ser grandes apenas para nós, mas o que importa é isso mesmo. Ter a habilidade, ser o dom, fazer a arte. Escrever sobre a vida, morte, rumo, sorte. Quem escreve está mais perto, de algum outro lugar, de uma outra vida, um outro lar. Traduzir, decifrar, descrever, contemplar. Verbos, adjetivos, vírgulas, pontos, chaves, reticências. Escritores grandes, grandes escritores, falam sobre mim coisas que nem eu sei dizer.
Outro dia li uma coisa, um trecho, citação, um punhado de palavras, uma sinfonia, uma canção. A cada letra, um novo caminho, de repente, eu não estava mais sozinho. Como pode aquele ser me decifrar completamente, dizendo palavras fortes, duras, sérias, solenes, palavras perenes. Ele escreveu um manual, um tratado particular; ele sabe falar sobre a dor, sobre o amor, sem o mínimo pudor. Ele sabe um pouco sobre tudo, basta você saber perguntar. Ele pode te dizer coisas sobre o mundo, universo, água, ar. Discorrer sobre todos os assuntos e nunca se cansar.
Sinto-me menos perdida sabendo que ele sentiu todos os meus medos, todas as minhas angústias. Escritores consagrados, mitos sagrados não me satisfazem mais. Quero que roubem minha vida, contem minha história, quero ser o João Ninguém, quero ser Alguém. Vamos criar metáforas, transcender, desaparecer. Escritores grandes tiram algo de você, furtam seus segredos, secretos segredos.
Você usa seu exército de símbolos contínuos e desconexos, alternados e no mesmo instante rendo-me ao seu poder de me encantar, fazer pensar, reavaliar. Um autor desconhecido, um homem sem nome, sem documento, escreveu na parede o que ele queria dizer, a quem não importa, pois, mesmo não sendo pra mim, nem muito menos pra você ele sabia como queria dizer, tanto sabia, ou melhor, sabia tanto, que mesmo desconhecido virou meu velho conhecido, gravado na alma, me alentando nos momentos de tormenta.
Um provérbio chinês, um dito popular, sabedoria divina, comédia da vida privada, o que realmente importa, é nem sempre se importar. Um dia me encontrei perdido, me perdi quando me encontrei, coisas não ditas me fazem acreditar que nem sempre o silêncio ajuda a acalmar. Pode me chamar de louco, porque o louco sou eu. Eu sei ser dramático, frio, mal, melancólico, patético, hipócrita, positivo, negativo, quente, gente. Não sei escrever, usar pontuações, passar emoções, mas quem liga? Um grande escritor não vive só de palavras, as palavras é que vivem dele. Um escritor pequeno, médio, descartável, um escritor limpo, sujo, memorável. Todos têm alguma coisa a dizer, o que nos resta é agir e quem sabe um dia o escritor grande será você.

JessBarros

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